Índice9 secções
- A planta por dentro: Cannabis sativa L., subespécies e a diferença entre cânhamo e canábis
- O que a planta fabrica: CBD, THC, CBG e os terpenos que lhe dão o cheiro
- Sativa, indica, híbridos: o que é verdade e o que já não se aguenta de pé
- Erva, ganza, liamba, haxixe, pólen, óleo: o dicionário português da canábis
- Charro, vaporizador, óleo ou edibles: o que muda em cada forma de consumo
- CBD, THC e THCX: como se organizam as gamas da SPLIFF
- Ler uma etiqueta de flor CBD sem te deixares enganar: % CBD, THC < 0,3 % e o resto
- Conclusão
- Perguntas frequentes

A canábis e o cânhamo são a mesma planta. O nome botânico é um só, Cannabis sativa, com a mesma raiz, os mesmos caules fibrosos e as mesmas folhas serradas; o que os separa não é a botânica, é o teor de THC, e vais ver o número exacto já na primeira secção.
Ouço esta confusão quase todas as semanas, e nunca vem de má-fé. Por isso vou levar-te ao campo por um minuto. Da raiz ao topo, a planta não desperdiça nada: caules que dão fibra, sementes que dão óleo, folhas que trabalham o sol. E no fim da linha, o que todos procuram: as flores fêmeas não polinizadas, que engrossam de resina e se cobrem de tricomas, os pêlos minúsculos onde se concentra tudo o que interessa.
Neste guia vais perceber o que a planta fabrica por dentro, o que separa uma sativa de uma indica (menos do que te disseram), como se chama cada coisa em português, o que muda entre um charro e um vaporizador, e como se lê um rótulo de flor CBD sem te deixares enganar. Com calma, como se faz no campo.
O essencial em 30 segundos
A canábis (Cannabis sativa L.) é uma só planta: raiz, caules, folhas e sementes têm funções distintas, mas é nas flores fêmeas não polinizadas que se concentram o THC, o CBD e os terpenos. Saber ler a planta e o rótulo é o que te deixa comprar com critério.
- Cânhamo e canábis distinguem-se por um limite de THC, não pela forma da folha.
- «Sativa» e «indica» descrevem porte e ciclo de floração; o efeito depende do rácio de canabinóides e dos terpenos do lote.
- Um rótulo fiável indica o teor de CBD total, o THC medido, o lote e a data de colheita, e vem com certificado de análise.
A planta por dentro: Cannabis sativa L., subespécies e a diferença entre cânhamo e canábis
Vamos abrir a planta em pedaços, como quem desmonta um motor velho para perceber o que faz cada peça. A mesma planta dá matérias-primas completamente diferentes consoante a parte que colhes:
- Caules: fibra, para cordas, tecidos, isolamento e papel. Sem resina nenhuma.
- Folhas: a fábrica de energia, com cinco a onze folíolos consoante a idade. Tricomas dispersos, e poucos.
- Sementes: alimento e óleo, sem canabinóides em quantidade significativa. As sementes de canábis que se compram para cultivo são a mesma coisa, só que escolhidas pela genética.
- Flores fêmeas não polinizadas: o prémio. É onde a resina se acumula, dentro dos tricomas glandulares. Se uma fêmea é polinizada, mete-se a fazer semente e abandona a resina; por isso, numa cultura séria, os machos saem cedo.
Repara nesta distinção, porque é ela que explica quase toda a legislação. A lei raramente fala da planta inteira: fala das sumidades floridas, que são o que concentra os compostos activos. Em Portugal, o regime dos estupefacientes assenta no Decreto-Lei n.º 15/93, que inclui a canábis, a resina e o óleo nas suas tabelas[1]. No quadro europeu, o cânhamo só é elegível para apoio agrícola com um teor de THC até 0,3 %, o limite fixado no regulamento da política agrícola comum[2]. Acima disso, a mesma planta muda de categoria jurídica, com o mesmo terreno e as mesmas alfaias.
Há ainda uma terceira via, que muita gente mistura com o resto e não devia. A utilização de canábis para fins medicinais é permitida em Portugal desde 2019, com quadro na Lei n.º 33/2018[3] e regulamentação pelo Decreto-Lei n.º 8/2019[4]: avaliação pelo Infarmed, prescrição médica e dispensa em farmácia[5].
E depois há o sítio onde a planta cresce, que para mim conta tanto como a semente. No Alentejo, com sol forte e noites quentes, a planta fecha-se, robusta, com uma resina que cheira a terra quente e a pinho. Nas Beiras, com humidade e amplitude térmica, a mesma semente dá flores mais soltas e um perfume mais floral e cítrico. A colheita marca-se com uma lupa: tricomas transparentes, a planta ainda trabalha; leitosos, com os primeiros âmbar, é altura de cortar.
O que a planta fabrica: CBD, THC, CBG e os terpenos que lhe dão o cheiro
A resina que se acumula nos tricomas não é só uma cola pegajosa: é uma fábrica. É ali, e quase só ali, que a planta sintetiza os canabinóides e os terpenos. Começo pelos canabinóides, a família de compostos característica desta planta:
- THC: o principal constituinte psicoactivo da planta, segundo a OMS[6], e a molécula que a lei portuguesa enquadra[1].
- CBD (canabidiol): o canabinóide não psicotrópico que domina o perfil das variedades de cânhamo[6].
- CBG (canabigerol): chamo-lhe a molécula-mãe. É a partir do seu precursor ácido que a planta constrói o CBD e o THC durante a floração, o que explica porque sobra tão pouco CBG na flor madura; a via de síntese a partir do CBGA está descrita na revisão de Russo[8].
- CBN (canabinol): não é produzido pela planta; forma-se com o tempo, a luz e o oxigénio a partir do THC, de que é o principal produto de degradação[7]. Uma flor mal guardada vê o seu perfil deslizar nesta direcção.
Agora a parte que se aprende com o nariz. Os terpenos são os compostos aromáticos, os mesmos que dão cheiro ao pinheiro, ao limão e à alfazema. Russo (2011) descreve-os como o outro pilar do perfil da planta, ao lado dos canabinóides, e é neles que está quase todo o carácter de um lote[8].
| Terpeno | O que o nariz apanha | Também está em |
|---|---|---|
| Mirceno | Terroso, húmido, a fruto maduro | Manga, lúpulo, tomilho |
| Limoneno | Cítrico, agudo, limpa as narinas | Casca de laranja e limão |
| Pineno | Resinoso, fresco, a mato ao sol | Agulha de pinheiro, rosmaninho |
| Linalol | Floral, doce, a sabão de alfazema | Alfazema, coentro |
| Cariofileno | Apimentado, a pimenta preta moída | Pimenta, cravinho |
Estes compostos são voláteis: evaporam com o calor, com o vento, com o manuseamento bruto. Uma flor seca à pressa perde parte do perfume que tinha no campo, e não há maneira de o devolver. É por isso que insisto na cura lenta, no escuro, com semanas de paciência.
Falta o assunto onde muita gente exagera: o chamado efeito entourage, a ideia de que canabinóides e terpenos juntos produzem um resultado diferente da soma das partes. A revisão de Russo (2011) reúne os indícios a favor desta sinergia, mas apresenta-a como hipótese a testar, não como certeza clínica[8]. Trata-a como eu a trato: um argumento a favor de flor inteira e bem curada, nunca uma promessa de efeito.
Sativa, indica, híbridos: o que é verdade e o que já não se aguenta de pé
Se o rácio de canabinóides e o cheiro explicam tanto, porque é que quase toda a gente continua a escolher por duas palavras, sativa ou indica? É a pergunta que me fazem mais vezes, e é aquela em que dou a resposta menos popular.
A dicotomia nasceu da botânica antiga e da linguagem de quem cultivava: porte e ciclo, como viste atrás. Até aqui, tudo verdade. O problema foi o salto seguinte, quando alguém decidiu que as primeiras davam um efeito «energético» e as segundas um efeito «relaxante». Essa parte nunca foi descrita pela botânica, foi construída pelo comércio. Na entrevista publicada por Piomelli e Russo (2016), Russo é directo: na sua leitura, a atribuição de efeitos ao rótulo sativa/indica carece de base, porque o que conta é o conteúdo químico de cada planta. É a posição de um dos investigadores mais citados da área, não um consenso fechado, mas é a que melhor encaixa no que se mede em laboratório[9].
O que ainda se aguenta de pé
Para quem trabalha a terra, estas palavras continuam a ter uso: descrevem morfologia, ciclo e origem geográfica. Uma linhagem de floração longa não acaba a tempo nas Beiras antes das chuvas de outubro; no Alentejo, a conta é outra. Como previsão de efeitos para quem consome, valem pouco.
O critério que substitui a etiqueta
| Critério | O que te diz de facto | Valor para prever a experiência |
|---|---|---|
| Rótulo sativa / indica | Uma categoria comercial herdada | Muito baixo |
| Nome da variedade | Genética aproximada, sem garantia entre produtores | Baixo |
| Rácio de canabinóides do lote | Números medidos em laboratório | Alto |
| Perfil de terpenos dominante | O carácter aromático real daquele lote | Alto |
| Época e método de cura | Quanto do perfume sobreviveu à secagem | Médio a alto |
Erva, ganza, liamba, haxixe, pólen, óleo: o dicionário português da canábis
Falar de perfis de terpenos é bonito, mas na rua ninguém pede «uma flor com mirceno dominante». Pede erva, ganza, haxixe. E é aí que a conversa se desmancha, porque metade das palavras muda de sentido consoante quem as diz e de onde vem. Vou arrumar-te isto de uma vez.
| Termo | O que designa mesmo | Nota de campo |
|---|---|---|
| Erva | A flor seca e curada, tal e qual sai do frasco | O termo mais neutro e mais usado em Portugal |
| Ganza | Conforme a região: o cigarro enrolado, ou o estado de quem consumiu | «Fazer uma ganza» e «estar com uma ganza» não são a mesma frase |
| Charro / charra | O cigarro enrolado com mistura de tabaco e flor | Palavra dominante entre gerações mais novas |
| Liamba | A planta e a flor, num termo de raiz africana entrado no português europeu | Chegou pelos países africanos de língua portuguesa, ao lado de «diamba» e «riamba» |
| Haxixe | Resina prensada, feita de tricomas recolhidos do material vegetal | Bloco compacto, escuro por fora, mais claro ao partir |
| Pólen | A mesma matéria resinosa, mas pulverulenta e pouco prensada | Esfarela-se entre os dedos em vez de se cortar |
| Óleo | Extracto líquido doseado, normalmente em frasco conta-gotas | Fala-se em miligramas, não em gramas |
| Edibles | Comestíveis, das gomas aos chocolates | Anglicismo já instalado; em português dizia-se «comestíveis» |
A resina merece uma nota de potência, porque é onde a diferença entre erva e haxixe se mede em números: Freeman et al. (2019) registaram, em 28 países europeus, um THC médio de 17 % na resina contra 10 % na erva em 2016[10]. Não é a mesma coisa, e não se trata da mesma maneira.
Na loja, o vocabulário traduz-se em prateleiras: a flor está nas flores CBD, a resina no haxixe CBD, o extracto no óleo CBD e os comestíveis nos edibles. Cada nome corresponde a uma forma física, não a uma promessa.
Última palavra a arrumar: «medicinal». Guarda-a para o que passa pela farmácia com receita, como viste na primeira secção; tudo o resto é flor, resina ou óleo, e chama-se pelo nome.
Charro, vaporizador, óleo ou edibles: o que muda em cada forma de consumo
A mesma flor, na mesma gaveta, dá experiências diferentes consoante o gesto que fazes com ela. A OMS distingue três preparações clássicas: erva, resina e óleo[6].
Começo pela combustão, porque é a tradição e a que mais engano traz. O charro, a charra, o cachimbo: acendes, e o que te chega à boca já não é a flor que cheiraste no frasco. À temperatura da brasa, os terpenos mais leves, aqueles que tanto trabalho deram a preservar na cura, desaparecem antes de chegarem a ti. Ganhas rapidez e perdes finura. E há o óbvio: fumo é fumo. Queimar matéria vegetal produz alcatrão e partículas que irritam as vias respiratórias, seja a flor rica em THC ou em CBD[6].
O vaporizador foi a coisa que mais mudou a minha relação com a planta. Não queima, aquece, e ao aquecer dá-te uma coisa que a brasa nunca te deu: escolher o que extrais. Em temperaturas baixas o vapor sai fino e sabe mesmo à flor, porque o limoneno e o pineno fogem primeiro; à medida que subes, extrais mais canabinóides e menos perfume. Quem quer experimentar encontra o material na secção de vape CBD.
A ingestão joga noutro campeonato. Óleo debaixo da língua, gomas, infusões: aqui não há fumo nenhum, mas há uma variável que apanha toda a gente desprevenida, o tempo. Grotenhermen (2003) mostra que, por inalação, os efeitos começam em minutos e atingem o pico ao fim de cerca de 15 a 30 minutos, enquanto por via oral o início demora entre 30 e 90 minutos, o pico chega às 2 a 3 horas e a fracção absorvida é baixa e muito variável de pessoa para pessoa[7]. Daí a única regra que repito a quem experimenta edibles pela primeira vez: espera. A asneira clássica é achar que não está a resultar e repetir ao fim de meia hora.
| Forma | Início | Duração | O que ganhas | O que perdes |
|---|---|---|---|---|
| Charro / charra | Rápido | Curta | Ritual, controlo do momento | Terpenos queimados, fumo |
| Vaporizador | Rápido | Curta a média | Sabor, controlo da temperatura | Equipamento e limpeza |
| Óleo sublingual | Lento | Longa | Quantidade contada, discrição | Absorção variável |
| Edibles e infusões | Muito lento | Muito longa | Zero fumo | Pouca previsibilidade |
| Haxixe / pólen | Depende do suporte | Média | Concentração de resina | Exige calor e material próprios |
CBD, THC e THCX: como se organizam as gamas da SPLIFF
Falta a parte prática, a que interessa quando abres a loja. A nossa organização segue uma fronteira simples: o que o produto traz dentro e a forma física em que o queres ter na mão.
CBD: o território do aroma, sem efeito psicotrópico
É aqui que está a maior parte do que vendemos, e é por aqui que começa toda a gente que nunca comprou nada. Aqui manda o aroma, não o efeito. Nas flores CBD vais encontrar aquilo que a mim me prende: o cheiro. Os teores andam tipicamente entre 5 % e 20 % de CBD total, escritos no certificado de análise de cada lote, sempre dentro do limite europeu de 0,3 % de THC que define o cânhamo[2].
Se o teu fraco é a resina, o haxixe CBD é outra conversa: mais concentrado, mais denso no aroma, com o lado especiado e amadeirado que a prensagem traz. Para quem prefere contar em miligramas e não em gramas, o óleo CBD é a forma mais discreta.
THC: existe, mas não está numa loja de bem-estar
O THC está classificado no regime dos estupefacientes em Portugal[1]. Não encontras flor rica em THC no nosso catálogo, e ninguém devia encontrá-la numa loja de bem-estar.
THCX: a gama para quem já tem tolerância feita
Depois vem a gama que me traz mais perguntas. THCX é o nome comercial de uma gama SPLIFF, não o nome de uma molécula: designa uma família de flores THCX, haxixe, vapes e extractos, feita a partir de cânhamo e pensada para quem já conhece o CBD e procura um perfil mais intenso. Não é flor rica em THC, que não vendemos, nem canábis medicinal, que só existe com receita: é uma gama de bem-estar distinta das duas, analisada lote a lote, e o certificado de análise acompanha cada produto. O que te posso descrever é a experiência: flores densas e resinosas, um aroma mais carregado, e uma sessão que se sente mais do que com o CBD.
Esta gama é comercializada em Portugal e na Europa; o enquadramento dos produtos de canábis muda de país para país e com o tempo, por isso confirma o quadro em vigor onde estás antes de encomendares. São produtos para quem já tem tolerância feita, nunca para uma primeira vez.
A grelha que uso para escolher
| Se procuras… | Olha para… | No rótulo, confirma… |
|---|---|---|
| Aroma e ritual, sem efeito psicotrópico | Flores CBD | % de CBD total, THC medido, data do lote |
| Resina densa, sabor mais especiado | Haxixe CBD | Concentração, origem da resina, análise |
| Um perfil mais intenso, com tolerância feita | Flores THCX | Certificado do lote e enquadramento no teu país |
| Quantidade contada, sem fumo | Óleo CBD | mg de CBD por ml e volume do frasco |

Ler uma etiqueta de flor CBD sem te deixares enganar: % CBD, THC < 0,3 % e o resto
Chegámos à parte que separa quem compra bem de quem compra à sorte: o papel colado no frasco. Um rótulo honesto não é publicidade, é um contrato: diz-te o que está lá dentro, de onde veio e quem o mediu.
| Linha do rótulo | O que diz mesmo | O que eu verifico |
|---|---|---|
| CBD total 12,4 % | Canabidiol já descarboxilado mais o precursor ácido convertido | Se aparece só «CBD 12,4 %» sem dizer «total», pode estar a contar o CBDA cru |
| THC medido | O valor real do lote, abaixo do limite do cânhamo[2] | Um valor concreto (0,18 %, por exemplo) vale mais do que um «<» vago |
| Lote 2024-ALT-07 | A identidade da colheita | Tem de coincidir, letra por letra, com o certificado |
| Data de colheita | A idade real da flor | Acima de doze a dezoito meses o perfume já não é o mesmo |
A diferença entre CBD e CBD+CBDA é onde mais gente tropeça. A planta acabada de cortar quase não tem CBD pronto: tem o precursor ácido, que só se converte com o tempo e com o calor. Quem soma as duas coisas e lhe chama «CBD» está a inflacionar o número sem mentir tecnicamente.
O teor de THC merece o mesmo olhar desconfiado, e não só na flor de cânhamo. Freeman et al. (2019) mediram que o THC médio da erva na Europa duplicou, de 5 % para 10 %, entre 2006 e 2016[10]. É a prova de que «canábis» não diz nada sobre potência: só o número medido no lote diz.
Depois vem o documento que vale mais do que o rótulo: o certificado de análise, o COA, feito por um laboratório independente. Nele olho para a data da análise, o número de lote, o perfil de canabinóides e a parte que ninguém lê: pesticidas e metais pesados, porque a raiz vai buscar ao solo tudo o que lá está. Nas flores e no haxixe CBD da SPLIFF cada lote leva o seu boletim. Se o vendedor não te mostra o papel, não é o papel que falta, é a confiança.
Sinais de alarme que dispensam laboratório: percentagens redondas iguais em todos os produtos da loja; ausência de lote ou de data de colheita; promessas de saúde impressas no rótulo, que pertencem ao circuito de prescrição enquadrado pelo Decreto-Lei n.º 8/2019[4], não a uma flor comprada online. Em casa, frasco de vidro hermético, ao abrigo da luz e do calor. A vida de um frasco mede-se pelo nariz, não pelo calendário.
Conclusão
No fim de cada colheita fico com a mesma ideia na cabeça: a canábis não é mistério nenhum, é uma planta com regras. Aprendes a lê-la como se lê o tempo, pelo cheiro que muda, pelos tricomas que ficam leitosos, pelos números que vêm no certificado.
Guarda o essencial: uma só planta, um limite de THC que separa o cânhamo do resto, um rótulo que se lê com o certificado ao lado, e uma forma de consumo que muda tanto como a flor. Agora que já sabes ler a planta, escolhe com calma: começa pelas flores CBD e deixa o nariz decidir, que ele raramente se engana.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre cânhamo e canábis?
São a mesma planta, Cannabis sativa L. O que as separa é um limite: no quadro europeu, uma cultura de cânhamo só é elegível para apoio agrícola se o THC não ultrapassar 0,3 %[2]. Acima disso, a mesma planta muda de categoria jurídica, com o mesmo terreno e as mesmas alfaias.
Como é a flor da planta de canábis?
A flor fêmea não polinizada é a parte onde a resina se acumula, dentro dos tricomas glandulares. É ela que concentra os canabinóides e os terpenos, ao contrário de caules, folhas e sementes, que servem para fibra, energia ou óleo.
Qual a diferença entre canábis indica, sativa e ruderalis?
São três formas com portes distintos: a sativa é alta e de ciclo longo, a indica é baixa e de maturação rápida, e a ruderalis é pequena e pouco produtiva, mas floresce pela idade e não pelas horas de luz, o que deu origem à autofloração. O rótulo sativa/indica não prevê o efeito: só o rácio de canabinóides e os terpenos do lote o fazem.
O que distingue CBD, THC e CBG numa planta de canábis?
O THC é o principal constituinte psicoactivo da planta e está sob o regime dos estupefacientes em Portugal. O CBD é o canabinóide não psicotrópico dominante nas variedades de cânhamo. O CBG é a molécula-mãe a partir da qual a planta constrói o CBD e o THC durante a floração, por isso sobra pouco na flor madura. O CBN não é produzido pela planta: forma-se com o tempo e a luz a partir do THC.
O que é o THCX da SPLIFF?
THCX é o nome comercial de uma gama SPLIFF de flores, haxixe, vapes e extractos, não o nome de uma molécula. É uma gama pensada para quem já conhece o CBD e procura um perfil mais intenso, com efeito perceptível, e cada lote vem com o seu certificado de análise. É comercializada em Portugal e na Europa, e convém confirmar o enquadramento em vigor no teu país antes de encomendar.
Fontes
- Decreto-Lei n.º 15/93, de 22 de janeiro — regime jurídico do tráfico e consumo de estupefacientes e substâncias psicotrópicas (canábis, resina e óleo nas tabelas anexas) — texto consolidado, Procuradoria-Geral Regional de Lisboa — www.pgdlisboa.pt
- Regulamento (UE) 2021/2115, art. 4.º — o cânhamo só é elegível com um teor de THC não superior a 0,3 % — EUR-Lex — eur-lex.europa.eu
- Lei n.º 33/2018, de 18 de julho — quadro legal para a utilização de medicamentos, preparações e substâncias à base da planta da canábis para fins medicinais — Diário da República — diariodarepublica.pt
- Decreto-Lei n.º 8/2019, de 15 de janeiro — regulamenta a Lei n.º 33/2018 (prescrição médica, dispensa em farmácia, avaliação pelo Infarmed) — Diário da República — diariodarepublica.pt
- Infarmed — Canábis medicinal: autorização, prescrição e dispensa das preparações à base da planta da canábis em Portugal — www.infarmed.pt
- Organização Mundial da Saúde — Cannabis: preparações (erva, resina, óleo), THC como principal constituinte psicoactivo, efeitos agudos e crónicos do uso não medicinal — www.who.int
- Grotenhermen F. (2003), Pharmacokinetics and pharmacodynamics of cannabinoids — Clinical Pharmacokinetics (início, pico e duração dos efeitos por inalação e por via oral) — PubMed — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Russo E. B. (2011), Taming THC: potential cannabis synergy and phytocannabinoid-terpenoid entourage effects — British Journal of Pharmacology — PubMed — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Piomelli D., Russo E. B. (2016), The Cannabis sativa versus Cannabis indica debate: an interview with Ethan Russo — Cannabis and Cannabinoid Research — PubMed — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Freeman T. P. et al. (2019), Increasing potency and price of cannabis in Europe, 2006-16 — Addiction (teor de THC da erva e da resina em 28 países) — PubMed — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov














