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Canábis: a planta, os canabinóides e as palavras certas

Índice9 secções
  1. A planta por dentro: Cannabis sativa L., subespécies e a diferença entre cânhamo e canábis
  2. O que a planta fabrica: CBD, THC, CBG e os terpenos que lhe dão o cheiro
  3. Sativa, indica, híbridos: o que é verdade e o que já não se aguenta de pé
  4. Erva, ganza, liamba, haxixe, pólen, óleo: o dicionário português da canábis
  5. Charro, vaporizador, óleo ou edibles: o que muda em cada forma de consumo
  6. CBD, THC e THCX: como se organizam as gamas da SPLIFF
  7. Ler uma etiqueta de flor CBD sem te deixares enganar: % CBD, THC < 0,3 % e o resto
  8. Conclusão
  9. Perguntas frequentes
Foto de abertura: Canábis

A canábis e o cânhamo são a mesma planta. O nome botânico é um só, Cannabis sativa, com a mesma raiz, os mesmos caules fibrosos e as mesmas folhas serradas; o que os separa não é a botânica, é o teor de THC, e vais ver o número exacto já na primeira secção.

Ouço esta confusão quase todas as semanas, e nunca vem de má-fé. Por isso vou levar-te ao campo por um minuto. Da raiz ao topo, a planta não desperdiça nada: caules que dão fibra, sementes que dão óleo, folhas que trabalham o sol. E no fim da linha, o que todos procuram: as flores fêmeas não polinizadas, que engrossam de resina e se cobrem de tricomas, os pêlos minúsculos onde se concentra tudo o que interessa.

Neste guia vais perceber o que a planta fabrica por dentro, o que separa uma sativa de uma indica (menos do que te disseram), como se chama cada coisa em português, o que muda entre um charro e um vaporizador, e como se lê um rótulo de flor CBD sem te deixares enganar. Com calma, como se faz no campo.

O essencial em 30 segundos

A canábis (Cannabis sativa L.) é uma só planta: raiz, caules, folhas e sementes têm funções distintas, mas é nas flores fêmeas não polinizadas que se concentram o THC, o CBD e os terpenos. Saber ler a planta e o rótulo é o que te deixa comprar com critério.

  • Cânhamo e canábis distinguem-se por um limite de THC, não pela forma da folha.
  • «Sativa» e «indica» descrevem porte e ciclo de floração; o efeito depende do rácio de canabinóides e dos terpenos do lote.
  • Um rótulo fiável indica o teor de CBD total, o THC medido, o lote e a data de colheita, e vem com certificado de análise.

A planta por dentro: Cannabis sativa L., subespécies e a diferença entre cânhamo e canábis

Vamos abrir a planta em pedaços, como quem desmonta um motor velho para perceber o que faz cada peça. A mesma planta dá matérias-primas completamente diferentes consoante a parte que colhes:

  • Caules: fibra, para cordas, tecidos, isolamento e papel. Sem resina nenhuma.
  • Folhas: a fábrica de energia, com cinco a onze folíolos consoante a idade. Tricomas dispersos, e poucos.
  • Sementes: alimento e óleo, sem canabinóides em quantidade significativa. As sementes de canábis que se compram para cultivo são a mesma coisa, só que escolhidas pela genética.
  • Flores fêmeas não polinizadas: o prémio. É onde a resina se acumula, dentro dos tricomas glandulares. Se uma fêmea é polinizada, mete-se a fazer semente e abandona a resina; por isso, numa cultura séria, os machos saem cedo.

Repara nesta distinção, porque é ela que explica quase toda a legislação. A lei raramente fala da planta inteira: fala das sumidades floridas, que são o que concentra os compostos activos. Em Portugal, o regime dos estupefacientes assenta no Decreto-Lei n.º 15/93, que inclui a canábis, a resina e o óleo nas suas tabelas[1]. No quadro europeu, o cânhamo só é elegível para apoio agrícola com um teor de THC até 0,3 %, o limite fixado no regulamento da política agrícola comum[2]. Acima disso, a mesma planta muda de categoria jurídica, com o mesmo terreno e as mesmas alfaias.

Há ainda uma terceira via, que muita gente mistura com o resto e não devia. A utilização de canábis para fins medicinais é permitida em Portugal desde 2019, com quadro na Lei n.º 33/2018[3] e regulamentação pelo Decreto-Lei n.º 8/2019[4]: avaliação pelo Infarmed, prescrição médica e dispensa em farmácia[5].

ℹ️ Três coisas distintas, três regimes distintos: o cânhamo agrícola e os produtos de bem-estar derivados dele; a canábis medicinal, um circuito médico com receita; e a canábis rica em THC, sob o regime dos estupefacientes. Nada do que se compra numa loja de bem-estar pertence ao segundo grupo.

E depois há o sítio onde a planta cresce, que para mim conta tanto como a semente. No Alentejo, com sol forte e noites quentes, a planta fecha-se, robusta, com uma resina que cheira a terra quente e a pinho. Nas Beiras, com humidade e amplitude térmica, a mesma semente dá flores mais soltas e um perfume mais floral e cítrico. A colheita marca-se com uma lupa: tricomas transparentes, a planta ainda trabalha; leitosos, com os primeiros âmbar, é altura de cortar.

Números-chave — A planta por dentro: Cannabis sativa L., subespécies e a diferença entre cânhamo e canábis
Números-chave : 2 dados

O que a planta fabrica: CBD, THC, CBG e os terpenos que lhe dão o cheiro

A resina que se acumula nos tricomas não é só uma cola pegajosa: é uma fábrica. É ali, e quase só ali, que a planta sintetiza os canabinóides e os terpenos. Começo pelos canabinóides, a família de compostos característica desta planta:

  • THC: o principal constituinte psicoactivo da planta, segundo a OMS[6], e a molécula que a lei portuguesa enquadra[1].
  • CBD (canabidiol): o canabinóide não psicotrópico que domina o perfil das variedades de cânhamo[6].
  • CBG (canabigerol): chamo-lhe a molécula-mãe. É a partir do seu precursor ácido que a planta constrói o CBD e o THC durante a floração, o que explica porque sobra tão pouco CBG na flor madura; a via de síntese a partir do CBGA está descrita na revisão de Russo[8].
  • CBN (canabinol): não é produzido pela planta; forma-se com o tempo, a luz e o oxigénio a partir do THC, de que é o principal produto de degradação[7]. Uma flor mal guardada vê o seu perfil deslizar nesta direcção.

Agora a parte que se aprende com o nariz. Os terpenos são os compostos aromáticos, os mesmos que dão cheiro ao pinheiro, ao limão e à alfazema. Russo (2011) descreve-os como o outro pilar do perfil da planta, ao lado dos canabinóides, e é neles que está quase todo o carácter de um lote[8].

Terpeno O que o nariz apanha Também está em
Mirceno Terroso, húmido, a fruto maduro Manga, lúpulo, tomilho
Limoneno Cítrico, agudo, limpa as narinas Casca de laranja e limão
Pineno Resinoso, fresco, a mato ao sol Agulha de pinheiro, rosmaninho
Linalol Floral, doce, a sabão de alfazema Alfazema, coentro
Cariofileno Apimentado, a pimenta preta moída Pimenta, cravinho

Estes compostos são voláteis: evaporam com o calor, com o vento, com o manuseamento bruto. Uma flor seca à pressa perde parte do perfume que tinha no campo, e não há maneira de o devolver. É por isso que insisto na cura lenta, no escuro, com semanas de paciência.

💡 Esfrega uma flor seca entre o polegar e o indicador e cheira os dedos, não a flor. Os terpenos libertam-se com o atrito e dizem-te logo se o lote foi curado com tempo ou seco a martelo.

Falta o assunto onde muita gente exagera: o chamado efeito entourage, a ideia de que canabinóides e terpenos juntos produzem um resultado diferente da soma das partes. A revisão de Russo (2011) reúne os indícios a favor desta sinergia, mas apresenta-a como hipótese a testar, não como certeza clínica[8]. Trata-a como eu a trato: um argumento a favor de flor inteira e bem curada, nunca uma promessa de efeito.

Sativa, indica, híbridos: o que é verdade e o que já não se aguenta de pé

Se o rácio de canabinóides e o cheiro explicam tanto, porque é que quase toda a gente continua a escolher por duas palavras, sativa ou indica? É a pergunta que me fazem mais vezes, e é aquela em que dou a resposta menos popular.

A dicotomia nasceu da botânica antiga e da linguagem de quem cultivava: porte e ciclo, como viste atrás. Até aqui, tudo verdade. O problema foi o salto seguinte, quando alguém decidiu que as primeiras davam um efeito «energético» e as segundas um efeito «relaxante». Essa parte nunca foi descrita pela botânica, foi construída pelo comércio. Na entrevista publicada por Piomelli e Russo (2016), Russo é directo: na sua leitura, a atribuição de efeitos ao rótulo sativa/indica carece de base, porque o que conta é o conteúdo químico de cada planta. É a posição de um dos investigadores mais citados da área, não um consenso fechado, mas é a que melhor encaixa no que se mede em laboratório[9].

O que ainda se aguenta de pé

Para quem trabalha a terra, estas palavras continuam a ter uso: descrevem morfologia, ciclo e origem geográfica. Uma linhagem de floração longa não acaba a tempo nas Beiras antes das chuvas de outubro; no Alentejo, a conta é outra. Como previsão de efeitos para quem consome, valem pouco.

ℹ️ O rótulo «indica» ou «sativa» não é uma informação analítica. Não sai de nenhum laboratório, não consta de nenhum certificado de lote e nenhum organismo o verifica. É uma categoria comercial herdada.

O critério que substitui a etiqueta

Critério O que te diz de facto Valor para prever a experiência
Rótulo sativa / indica Uma categoria comercial herdada Muito baixo
Nome da variedade Genética aproximada, sem garantia entre produtores Baixo
Rácio de canabinóides do lote Números medidos em laboratório Alto
Perfil de terpenos dominante O carácter aromático real daquele lote Alto
Época e método de cura Quanto do perfume sobreviveu à secagem Médio a alto
💡 Abre o frasco antes de olhar para o nome. Cheira, identifica o que domina (terroso, cítrico, resinoso, floral), depois confirma os números do certificado do lote. Se o vendedor só te souber dizer «é indica», falta-lhe informação, não te falta a ti critério.

Erva, ganza, liamba, haxixe, pólen, óleo: o dicionário português da canábis

Falar de perfis de terpenos é bonito, mas na rua ninguém pede «uma flor com mirceno dominante». Pede erva, ganza, haxixe. E é aí que a conversa se desmancha, porque metade das palavras muda de sentido consoante quem as diz e de onde vem. Vou arrumar-te isto de uma vez.

Termo O que designa mesmo Nota de campo
Erva A flor seca e curada, tal e qual sai do frasco O termo mais neutro e mais usado em Portugal
Ganza Conforme a região: o cigarro enrolado, ou o estado de quem consumiu «Fazer uma ganza» e «estar com uma ganza» não são a mesma frase
Charro / charra O cigarro enrolado com mistura de tabaco e flor Palavra dominante entre gerações mais novas
Liamba A planta e a flor, num termo de raiz africana entrado no português europeu Chegou pelos países africanos de língua portuguesa, ao lado de «diamba» e «riamba»
Haxixe Resina prensada, feita de tricomas recolhidos do material vegetal Bloco compacto, escuro por fora, mais claro ao partir
Pólen A mesma matéria resinosa, mas pulverulenta e pouco prensada Esfarela-se entre os dedos em vez de se cortar
Óleo Extracto líquido doseado, normalmente em frasco conta-gotas Fala-se em miligramas, não em gramas
Edibles Comestíveis, das gomas aos chocolates Anglicismo já instalado; em português dizia-se «comestíveis»

A resina merece uma nota de potência, porque é onde a diferença entre erva e haxixe se mede em números: Freeman et al. (2019) registaram, em 28 países europeus, um THC médio de 17 % na resina contra 10 % na erva em 2016[10]. Não é a mesma coisa, e não se trata da mesma maneira.

💡 Regra simples: erva é flor, haxixe e pólen são resina. Tudo o resto (charro, ganza) descreve o que fazes com elas, não o que elas são.
ℹ️ Duas pesquisas aparecem sempre: «liamba droga» e «chá de liamba». A primeira reflecte só o enquadramento legal, já que os textos portugueses falam de canábis, folhas e sumidades floridas, nunca de liamba[1]. A segunda é folclore herdado das antigas colónias, sem qualquer indicação de preparação ou finalidade da nossa parte.

Na loja, o vocabulário traduz-se em prateleiras: a flor está nas flores CBD, a resina no haxixe CBD, o extracto no óleo CBD e os comestíveis nos edibles. Cada nome corresponde a uma forma física, não a uma promessa.

Última palavra a arrumar: «medicinal». Guarda-a para o que passa pela farmácia com receita, como viste na primeira secção; tudo o resto é flor, resina ou óleo, e chama-se pelo nome.

Charro, vaporizador, óleo ou edibles: o que muda em cada forma de consumo

A mesma flor, na mesma gaveta, dá experiências diferentes consoante o gesto que fazes com ela. A OMS distingue três preparações clássicas: erva, resina e óleo[6].

Começo pela combustão, porque é a tradição e a que mais engano traz. O charro, a charra, o cachimbo: acendes, e o que te chega à boca já não é a flor que cheiraste no frasco. À temperatura da brasa, os terpenos mais leves, aqueles que tanto trabalho deram a preservar na cura, desaparecem antes de chegarem a ti. Ganhas rapidez e perdes finura. E há o óbvio: fumo é fumo. Queimar matéria vegetal produz alcatrão e partículas que irritam as vias respiratórias, seja a flor rica em THC ou em CBD[6].

O vaporizador foi a coisa que mais mudou a minha relação com a planta. Não queima, aquece, e ao aquecer dá-te uma coisa que a brasa nunca te deu: escolher o que extrais. Em temperaturas baixas o vapor sai fino e sabe mesmo à flor, porque o limoneno e o pineno fogem primeiro; à medida que subes, extrais mais canabinóides e menos perfume. Quem quer experimentar encontra o material na secção de vape CBD.

A ingestão joga noutro campeonato. Óleo debaixo da língua, gomas, infusões: aqui não há fumo nenhum, mas há uma variável que apanha toda a gente desprevenida, o tempo. Grotenhermen (2003) mostra que, por inalação, os efeitos começam em minutos e atingem o pico ao fim de cerca de 15 a 30 minutos, enquanto por via oral o início demora entre 30 e 90 minutos, o pico chega às 2 a 3 horas e a fracção absorvida é baixa e muito variável de pessoa para pessoa[7]. Daí a única regra que repito a quem experimenta edibles pela primeira vez: espera. A asneira clássica é achar que não está a resultar e repetir ao fim de meia hora.

⚠️ Conteúdo para maiores de 18 anos. Nunca ao volante nem a operar máquinas, e nunca associado a álcool. O CBD não é um medicamento e não substitui um parecer nem um tratamento médico. Em caso de dúvida, consulta um profissional de saúde.
Forma Início Duração O que ganhas O que perdes
Charro / charra Rápido Curta Ritual, controlo do momento Terpenos queimados, fumo
Vaporizador Rápido Curta a média Sabor, controlo da temperatura Equipamento e limpeza
Óleo sublingual Lento Longa Quantidade contada, discrição Absorção variável
Edibles e infusões Muito lento Muito longa Zero fumo Pouca previsibilidade
Haxixe / pólen Depende do suporte Média Concentração de resina Exige calor e material próprios

CBD, THC e THCX: como se organizam as gamas da SPLIFF

Falta a parte prática, a que interessa quando abres a loja. A nossa organização segue uma fronteira simples: o que o produto traz dentro e a forma física em que o queres ter na mão.

CBD: o território do aroma, sem efeito psicotrópico

É aqui que está a maior parte do que vendemos, e é por aqui que começa toda a gente que nunca comprou nada. Aqui manda o aroma, não o efeito. Nas flores CBD vais encontrar aquilo que a mim me prende: o cheiro. Os teores andam tipicamente entre 5 % e 20 % de CBD total, escritos no certificado de análise de cada lote, sempre dentro do limite europeu de 0,3 % de THC que define o cânhamo[2].

Se o teu fraco é a resina, o haxixe CBD é outra conversa: mais concentrado, mais denso no aroma, com o lado especiado e amadeirado que a prensagem traz. Para quem prefere contar em miligramas e não em gramas, o óleo CBD é a forma mais discreta.

THC: existe, mas não está numa loja de bem-estar

O THC está classificado no regime dos estupefacientes em Portugal[1]. Não encontras flor rica em THC no nosso catálogo, e ninguém devia encontrá-la numa loja de bem-estar.

THCX: a gama para quem já tem tolerância feita

Depois vem a gama que me traz mais perguntas. THCX é o nome comercial de uma gama SPLIFF, não o nome de uma molécula: designa uma família de flores THCX, haxixe, vapes e extractos, feita a partir de cânhamo e pensada para quem já conhece o CBD e procura um perfil mais intenso. Não é flor rica em THC, que não vendemos, nem canábis medicinal, que só existe com receita: é uma gama de bem-estar distinta das duas, analisada lote a lote, e o certificado de análise acompanha cada produto. O que te posso descrever é a experiência: flores densas e resinosas, um aroma mais carregado, e uma sessão que se sente mais do que com o CBD.

Esta gama é comercializada em Portugal e na Europa; o enquadramento dos produtos de canábis muda de país para país e com o tempo, por isso confirma o quadro em vigor onde estás antes de encomendares. São produtos para quem já tem tolerância feita, nunca para uma primeira vez.

A grelha que uso para escolher

Se procuras… Olha para… No rótulo, confirma…
Aroma e ritual, sem efeito psicotrópico Flores CBD % de CBD total, THC medido, data do lote
Resina densa, sabor mais especiado Haxixe CBD Concentração, origem da resina, análise
Um perfil mais intenso, com tolerância feita Flores THCX Certificado do lote e enquadramento no teu país
Quantidade contada, sem fumo Óleo CBD mg de CBD por ml e volume do frasco
Foto do produto: Canábis

Ler uma etiqueta de flor CBD sem te deixares enganar: % CBD, THC < 0,3 % e o resto

Chegámos à parte que separa quem compra bem de quem compra à sorte: o papel colado no frasco. Um rótulo honesto não é publicidade, é um contrato: diz-te o que está lá dentro, de onde veio e quem o mediu.

Linha do rótulo O que diz mesmo O que eu verifico
CBD total 12,4 % Canabidiol já descarboxilado mais o precursor ácido convertido Se aparece só «CBD 12,4 %» sem dizer «total», pode estar a contar o CBDA cru
THC medido O valor real do lote, abaixo do limite do cânhamo[2] Um valor concreto (0,18 %, por exemplo) vale mais do que um «<» vago
Lote 2024-ALT-07 A identidade da colheita Tem de coincidir, letra por letra, com o certificado
Data de colheita A idade real da flor Acima de doze a dezoito meses o perfume já não é o mesmo

A diferença entre CBD e CBD+CBDA é onde mais gente tropeça. A planta acabada de cortar quase não tem CBD pronto: tem o precursor ácido, que só se converte com o tempo e com o calor. Quem soma as duas coisas e lhe chama «CBD» está a inflacionar o número sem mentir tecnicamente.

💡 Regra de bolso: em flor de cânhamo, valores acima de 20 % de CBD total são raríssimos. Quando vejo 30 % ou 35 % num rótulo de flor, não penso em génio agrícola, penso em resina adicionada ou em conta mal feita.

O teor de THC merece o mesmo olhar desconfiado, e não só na flor de cânhamo. Freeman et al. (2019) mediram que o THC médio da erva na Europa duplicou, de 5 % para 10 %, entre 2006 e 2016[10]. É a prova de que «canábis» não diz nada sobre potência: só o número medido no lote diz.

Depois vem o documento que vale mais do que o rótulo: o certificado de análise, o COA, feito por um laboratório independente. Nele olho para a data da análise, o número de lote, o perfil de canabinóides e a parte que ninguém lê: pesticidas e metais pesados, porque a raiz vai buscar ao solo tudo o que lá está. Nas flores e no haxixe CBD da SPLIFF cada lote leva o seu boletim. Se o vendedor não te mostra o papel, não é o papel que falta, é a confiança.

Sinais de alarme que dispensam laboratório: percentagens redondas iguais em todos os produtos da loja; ausência de lote ou de data de colheita; promessas de saúde impressas no rótulo, que pertencem ao circuito de prescrição enquadrado pelo Decreto-Lei n.º 8/2019[4], não a uma flor comprada online. Em casa, frasco de vidro hermético, ao abrigo da luz e do calor. A vida de um frasco mede-se pelo nariz, não pelo calendário.

⚠️ Conteúdo destinado a maiores de 18 anos.

Conclusão

No fim de cada colheita fico com a mesma ideia na cabeça: a canábis não é mistério nenhum, é uma planta com regras. Aprendes a lê-la como se lê o tempo, pelo cheiro que muda, pelos tricomas que ficam leitosos, pelos números que vêm no certificado.

Guarda o essencial: uma só planta, um limite de THC que separa o cânhamo do resto, um rótulo que se lê com o certificado ao lado, e uma forma de consumo que muda tanto como a flor. Agora que já sabes ler a planta, escolhe com calma: começa pelas flores CBD e deixa o nariz decidir, que ele raramente se engana.

⚠️ Em caso de dúvida, consulta um profissional de saúde.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre cânhamo e canábis?

São a mesma planta, Cannabis sativa L. O que as separa é um limite: no quadro europeu, uma cultura de cânhamo só é elegível para apoio agrícola se o THC não ultrapassar 0,3 %[2]. Acima disso, a mesma planta muda de categoria jurídica, com o mesmo terreno e as mesmas alfaias.

Como é a flor da planta de canábis?

A flor fêmea não polinizada é a parte onde a resina se acumula, dentro dos tricomas glandulares. É ela que concentra os canabinóides e os terpenos, ao contrário de caules, folhas e sementes, que servem para fibra, energia ou óleo.

Qual a diferença entre canábis indica, sativa e ruderalis?

São três formas com portes distintos: a sativa é alta e de ciclo longo, a indica é baixa e de maturação rápida, e a ruderalis é pequena e pouco produtiva, mas floresce pela idade e não pelas horas de luz, o que deu origem à autofloração. O rótulo sativa/indica não prevê o efeito: só o rácio de canabinóides e os terpenos do lote o fazem.

O que distingue CBD, THC e CBG numa planta de canábis?

O THC é o principal constituinte psicoactivo da planta e está sob o regime dos estupefacientes em Portugal. O CBD é o canabinóide não psicotrópico dominante nas variedades de cânhamo. O CBG é a molécula-mãe a partir da qual a planta constrói o CBD e o THC durante a floração, por isso sobra pouco na flor madura. O CBN não é produzido pela planta: forma-se com o tempo e a luz a partir do THC.

O que é o THCX da SPLIFF?

THCX é o nome comercial de uma gama SPLIFF de flores, haxixe, vapes e extractos, não o nome de uma molécula. É uma gama pensada para quem já conhece o CBD e procura um perfil mais intenso, com efeito perceptível, e cada lote vem com o seu certificado de análise. É comercializada em Portugal e na Europa, e convém confirmar o enquadramento em vigor no teu país antes de encomendar.

Fontes

  1. Decreto-Lei n.º 15/93, de 22 de janeiro — regime jurídico do tráfico e consumo de estupefacientes e substâncias psicotrópicas (canábis, resina e óleo nas tabelas anexas) — texto consolidado, Procuradoria-Geral Regional de Lisboa — www.pgdlisboa.pt
  2. Regulamento (UE) 2021/2115, art. 4.º — o cânhamo só é elegível com um teor de THC não superior a 0,3 % — EUR-Lex — eur-lex.europa.eu
  3. Lei n.º 33/2018, de 18 de julho — quadro legal para a utilização de medicamentos, preparações e substâncias à base da planta da canábis para fins medicinais — Diário da República — diariodarepublica.pt
  4. Decreto-Lei n.º 8/2019, de 15 de janeiro — regulamenta a Lei n.º 33/2018 (prescrição médica, dispensa em farmácia, avaliação pelo Infarmed) — Diário da República — diariodarepublica.pt
  5. Infarmed — Canábis medicinal: autorização, prescrição e dispensa das preparações à base da planta da canábis em Portugal — www.infarmed.pt
  6. Organização Mundial da Saúde — Cannabis: preparações (erva, resina, óleo), THC como principal constituinte psicoactivo, efeitos agudos e crónicos do uso não medicinal — www.who.int
  7. Grotenhermen F. (2003), Pharmacokinetics and pharmacodynamics of cannabinoids — Clinical Pharmacokinetics (início, pico e duração dos efeitos por inalação e por via oral) — PubMed — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  8. Russo E. B. (2011), Taming THC: potential cannabis synergy and phytocannabinoid-terpenoid entourage effects — British Journal of Pharmacology — PubMed — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  9. Piomelli D., Russo E. B. (2016), The Cannabis sativa versus Cannabis indica debate: an interview with Ethan Russo — Cannabis and Cannabinoid Research — PubMed — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  10. Freeman T. P. et al. (2019), Increasing potency and price of cannabis in Europe, 2006-16 — Addiction (teor de THC da erva e da resina em 28 países) — PubMed — pubmed.ncbi.nlm.nih.gov

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